pensamentos prensados

Quarta-feira, Março 11, 2009

Cacos no chão

Seus pés, imóveis, sangram. Suas mãos, arranhadas, sangram. Seu algoz, derrotado, ainda sangra. O sol, poente, ainda sangra e brilha. Seu coração, livre, não mais sangra. O espelho, aterrorizante, não mais brilha.

Domingo, Novembro 09, 2008

Basta o ar, a primeira sílaba

As pessoas se afogam nos detalhes, afundam-se. Em vez de emergirem e nadarem, elas se empurram, elas se puxam, elas se perdem.

Segunda-feira, Maio 05, 2008

O fim de uma longa festa (crônica)

A respiração fica tensa quando se sente o vazio. O medo reaparece e se fortalece diante do silêncio do dia em que paramos para organizar e analisar as lembranças dos últimos anos, lembranças de uma época que se despede. Agora só resta a lembrança da beleza de milhares de sorrisos jovens, frutos de nossa vontade natural de nos divertir, vontade potencializada pelas pequenas preocupações que tínhamos, pela certeza de que o futuro próximo ainda nos reservava um caminho definido.

A beleza desses dias voltará vez ou outra, em histórias e recordações, mas naturalmente de maneira menos intensa do que realmente foi. Estamos no fim de uma longa festa e a melancolia é a pior das ressacas. Ataca a mente, o coração e aquilo que chamamos de alma, a essência de tudo que somos e preenchemos desde o dia no qual a primeira de nossas lembranças infantis sobreviveu ao tempo.

Somos jovens demais e tudo que vivemos ainda parece pouco. Como falta muito para preenchermos todos os espaços dessa essência, as sensações de vazio podem se irromper facilmente: há coisas que ainda não fizemos, coisas que fizemos e se apagam lentamente, coisas que não fizemos corretamente e terminaram inacabadas, coisas que lamentamos por não ter feito, mesmo de momentos em que achávamos ter tentado de tudo.

A sensação de vazio nos perturba e nos confunde quando olhamos as lembranças bagunçadas dessa longa festa. Ela tenta criar ou ressuscitar arrependimentos, torná-los maiores do que a felicidade que sentimos, tenta diminuir a importância de lições, conquistas, redenções. Os erros ecoam e pequenas irrealidades surgem; consertamos situações em nossas mentes e nos torturamos com a simplicidade das coisas que devíamos ter feito para que tudo ficasse do jeito que queríamos.

Essa beleza ilusória, a busca mental do sonho perfeito, corrompe a melancolia pós-festa e a contemplação da beleza realmente sentida. Em vez de somente admirar e sorrir, passamos a nos inquietar com questionamentos antigos. Procuramos respostas e explicações, mas tudo que ouvimos são apenas sons cada vez mais fracos, com palavras se transformando em murmúrios e dançando à beira do silêncio.

Tantas coisas e vontades ficaram inacabadas pelo caminho e não temos mais tempo de recuperá-las. O futuro parecia que viria lentamente, mas quando olhamos para trás, percebemos que ele veio depressa demais. Tantas coisas aconteceram e, mesmo assim, ele veio rápido demais. Transformou os dias em memórias, as alegrias em nostalgias, as tristezas em cinzas.

Entoávamos uma bela canção há tanto tempo que agora não sabemos o que fazer com esse silêncio. O vazio parece ser o destino final de qualquer coisa que tentarmos, parece roubar através do esquecimento os contornos de tudo que vivemos, torna melancólico qualquer fim, principalmente dessa longa festa e de suas histórias que nunca mais se repetirão.

Ele, porém, só conseguirá tudo isso se ficarmos atônitos e perdidos nos destroços. Levantemos, bêbados ou não de alegria, juntos ou separados, e comecemos a andar e tropeçar em busca de novas festas, canções, sonhos, qualquer coisa que possamos acumular em nossas essências e nos fazer viver ainda mais. Essa é a única maneira de realmente fugir com sucesso da sensação de vazio e evitar o pior dos silêncios.

Segunda-feira, Abril 14, 2008

Impermanência

Somos um mosaico de fragmentos do passado que se renova diariamente. Há pedaços grudados na carne que doem apenas com o pensamento de arrancá-los; há outros que nem sequer se fixam na pele. Há aqueles que compõem mosaicos próprios e os que estranhamente nunca se racham e se dividem.

Quarta-feira, Dezembro 05, 2007

Uma ameaça silenciosa ao reino do vazio (conto-manifesto)

Olhe para todos eles e tente não se irritar. Todos estão sorrindo, não importa qual seja a quantidade de mentiras e bobagens que precisem contar e ouvir. Todos se divertem com as mesmas piadas, repetem idéias vazias, chocam-se por causa das contestações de sempre, espalham intrigas e invejas sem precisar renovar as fofocas, os boatos e os sentimentos vis e mesquinhos, que caminham tranqüilamente desde épocas e tempos imemoráveis.

Não importa o gigantismo de sua inutilidade, eles sempre estão no topo. No mundo das aparências em que vivem, a lógica do sistema é a troca recíproca de elogios falsos. Suas vidas medíocres são retratadas como dramas com finas felizes, quedas e glórias forjadas e superdimensionadas por revistas, canais de televisão e quaisquer outros arautos do lixo humano.

Olhe para todos eles; não são simplesmente pessoas, mas celebridades que devemos respeitar e admirar mesmo que não tenham feito, espontaneamente e sem interesses maiores, ações relevantes nos lugares onde vivem e transitam.

Suas opiniões, castelos de palavras superficiais, são proferidas como verdades reveladoras e supremas. Seus críticos são pessoas fracassadas, amargas e invejosas, que não entendem o talento natural desses seres que representam o espírito de uma época. Olhe para todas essas celebridades, líderes de um novo tempo: a Era do Desencanto.

Eles querem ser deuses e nos querem como seguidores, querem nos confortar com ilusões em um mundo confuso e caótico enquanto festejam em redomas à prova da realidade. Eles querem brilhar eternamente, mas não passam de estrelas que destruiremos para salvar nossas noites e nossos sonhos. Estamos na escuridão, mas não precisamos de luzes que nos ceguem.

Quarta-feira, Novembro 21, 2007

Os doze passos eternos (hai-kai)

Os versos dos doze passos reunidos, alguns com pequenas alterações. Mês que vem virá um texto novo, para que o blog não continue só com hai-kais.

A maldição provocada pelo coração inocente transformou a recordação em um ritual onipresente e implacável.

Na fila da redenção, só ecoava o réquiem das chances perdidas.

A longa Via Crucis fez parte da procissão que a vida observa por segundos antes de ignorá-la e entregá-la ao destino.

Após a beleza e a efemeridade de uma epifania, o sonho virou ceticismo.

A alma desorientada balançou entre o limbo, mais temível do que a morte, e a eternidade, mais temível do que a vida.

Entre erros e acertos, a santificação de momentos nostálgicos serviu como refúgio enquanto não se encontrava a paz.

Longe das conversas vazias, a meditação ouviu a única voz realmente necessária para compreender que o sacrifício era a melhor maneira de escapar das ilusões.

O passado desapareceu diante do sorriso da fortuna.

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O sol, a chance, o erro...
O menino de novembro
Foi, matou e chorou

As cigarras cantam
Que o fim é sempre amargo
Dezembro reflui

O vento arrancou
As pétalas do teu girassol
Poeta de janeiro

A cidade dança:
Fevereiro espreme
O bloco da nostalgia

Pó de folhas secas -
Março recolhe as cinzas
Das esperanças vãs

Os acordes fluem...
Do topo do céu azul de abril
Voa uma canção

O tédio (e a bebida)
Em maio, a noite branca
Da inexistência

Olhos despertos:
Frio junho matinal
Na névoa sem mundo

Ontem, distante,
A mulher de julho cantava...
Fim de tarde na sala

Olhos de agosto:
O menino se observa
e tenta refletir

Chuva de setembro
Flores pisoteadas
Por passos sem rumo

Anjo de outubro
Um tempo para o coração
Sempre contigo

Quarta-feira, Outubro 03, 2007

Os doze passos eternos XII (hai-kai)

Para a Rafa

Fortuna

Anjo de outubro
Um tempo para o coração
Sempre contigo