Pensamentos Prensados

segunda-feira, dezembro 05, 2016

Um conto sobre os contrastes do ano (de tantos tons humanos) - Semana #045


Linhas de exaustão

"Você... já fechou os olhos para esquecer as coisas acumuladas no coração? Alegrias que não voltam mais, dores que insistem em viver. Você abaixa a cabeça para não encarar o nada. Andar é difícil quando se arrasta cadáveres amarrados à memória. Como enterrar parte da sua vida sem se matar? Sua esperança... é abandonada em cada curva, mas o vento a recupera", uma crônica se incorporava;

As expectativas cantadas por poetas e bardos, contudo, podem ser como as expedições contadas por piratas e bandoleiros: palavras e motes que se abalam em meio a ataques e motins, que são abalroados e baqueados, mortos e amontoados, queimados na terra saqueada, jogados ao mar sargaçado. E as letras enfileiradas que, por ventura, escapam das labaredas e dos redemoinhos não se alentam ao ver o fim do mapa, onde todos os medos deveriam ser levantados e desterrados por braços de areia e carne, por cansaços de madeira e ferrugem. Na exumação do tempo dourado, só estas questões vêm à tona: onde está nosso tesouro, o que é mais precioso, o verso e o som eu / te / amo?

"O ato de manter-se calado, inerte e assustado diante dos monstros das profundezas marítimas é o momento mais significativo da grandeza que é a inabilidade, cem por cento inata, de singrarmos ao nosso destino em segurança", ela remava.

E assim, cedo e sem demora ou sempre e devagar, chegamos aonde nossas chamas não se acendem mais: do gás das estrelas até a massa em gangrena, nos formamos à base de infortúnios, mas a força com que rebatemos fraqueza por fraqueza é inútil e refratária no fim. Somos frágeis frascos de átomos e, após a fatura dos anos fraturados, nos tornaremos matérias extintas e espíritos mártires.

(Sob o sol raivoso, a saudade salga e não sai, e o suor não suporta mais o sufoco!)

Que Poseidon aceite conceder seu perdão aos navegantes que não sentem mais o ajuste das velas e se deixam levar de vez, de mãos juntas e atadas, pelo repuxo que atravessa cubos e esferas de densidades e os entrega, como sacrifícios voluntários, ao alcance de sereias e divindades do santuário aquático, no altar das oferendas, sob a abóboda celestial das ondas...

Ninguém revive à deriva.