Um conto sobre os contrastes do ano (de tantos tons humanos) - Semana #041
Linhas de melancolia
A primavera ainda consegue nos aprimorar com seus versos, com seus amáveis e extraordinários verbos e advérbios?
Se até a natureza, crua e cruel da maneira que também é, não desiste da felicidade como bem e como destino, por que tantas almas bondosas nunca largam o pranto, o lamento, a lástima, as lágrimas?
Para quem os pássaros cantam sem parar quando já se sentem amados e amparados, tendo o que mais querem?
Nos murmúrios do museu de um mundo musical,
A memória se abre como mar remoto para quem não sabe mais remar e, a despeito disso, parte com um mapa enterrado no peito insubmisso, desesperado por um tesouro apagado na tristeza do fundo do tempo.
"O empenho de pinheiros em meio a prédios e ventos é idêntico ao medo de marinheiros diante de maremotos e tormentas: eles se sobressaem em nome da sobrevivência", ela navegava, entre o alívio da morfina hospitalar e as náuseas do fino corpo hospedeiro.
(Com toque de textura única, a ternura nocauteia as piores dores, a tontura de tantas torturas, os tremores de tempos que vêm morrendo por dentro – ela derrota tudo depressa e junto, ela deixa todos os males desconjuntados, nem que seja por pálidos segundos ou cinco minutos, sem qualquer tipo de público. Ainda assim, já haverá uma pequena vitória da vida; já valerá a pena ver essa investida, bem serena, contra adversários invencíveis; já se terá, contra a enfermidade, uma risada incontida por um instante, mesmo que não esteja convalescente. O tão pouco se torna amplo e crescente quando estamos quase que totalmente impotentes.)

0 Comments:
Postar um comentário
<< Home