Pensamentos Prensados

domingo, outubro 09, 2016

Um conto sobre os contrastes do ano (de tantos tons humanos) - Semana #038


Linhas de revolução 

"Houve uma vez em que a cidade cinzenta desacelerou os segundos do século e se ouviu", um senhor assinalava.

"Diante da balança da sociedade abalada e desequilibrada por favorecimentos para o topo, por tantos fatos sem o conhecimento e a preocupação de muitos, milhares de pessoas perceberam que elas precisavam dos melhores atos que correspondessem a esses fatos."

"Na progressão profunda dos protestos, os cidadãos não estavam insaciáveis por salvações, mas por satisfações e soluções. Não merecíamos uma simulação de democracia, que, na verdade, era a mesma demonstração de sempre de desigualdade e divisões, de demagogia e dissimulações, de mediocridade e insinuações."

"Costurados em tecidos tênues, finos e indelicados, os costumes por privilégios foram cortados. Conforme nossos principais critérios, estávamos sentenciando setembro ao 'seu tempo', à destituição de clãs e de incontáveis asseclas e à mobilização por novos modos de considerar, organizar e solidificar uma vida conscientemente social, justa e solidária."

"Pense bem, meu caro: se tudo estivesse na direção certa, por que precisaríamos nos emancipar com revolta de tempos em tempos? Se todos fizessem parte dessa direção certa, por que milhões continuariam com um louvor divino e uma fé cega pelo dinheiro e pelos seus discípulos? A cidade cinzenta começou a recuperar cores e valores quando reviu seus conceitos, tão cheios de contradições e poréns até então."

"Assim, passo a passo, buscávamos assentar as bases de uma sociedade que prezasse pelo bom senso, pela empatia e pela responsabilidade, que retomasse nossa humanidade e respeitasse nossa diversidade. Aqueles momentos eram tão mágicos que minha memória de menino entoava uma canção antiga de palhaço, uma cantiga assimétrica do curinga:

'O belo não clama por atenção,
mas todos o admiram

O excluído mostra o rosto,
mas ninguém o compreende

O desajeitado treme no cumprimento,
mas ninguém o equilibra

O tímido hesita com as palavras,
mas ninguém o estimula

O melancólico remói o passado,
mas ninguém o resgata

O solitário quer o presente,
mas ninguém o beija

O ansioso teme o futuro,
mas ninguém o acalma

O amargo reclama de tudo,
mas ninguém o recupera com sorrisos

O arrependido lamenta as escolhas,
mas ninguém o incentiva a tentar de novo

O pecador pede desculpas,
mas ninguém o perdoa

O revoltado se indigna com injustiças,
mas ninguém o percebe

O bêbado tropeça em erros,
mas ninguém o levanta

O louco grita de dor,
mas ninguém o abraça

O desesperado chama por ajuda,
mas ninguém o socorre

O depressivo chora pela vida,
mas ninguém o suporta

O moribundo sonha com a cura,
mas ninguém o acalenta

O cansado se senta na calçada,
mas ninguém o reanima

O soturno enfrenta as trevas,
mas ninguém o ilumina

O quieto medita sobre o mundo,
mas ninguém o questiona

O artista muda paisagens,
mas ninguém o observa

O escritor destila impressões,
mas ninguém o lê

O poeta declama sensibilidades,
mas ninguém o absorve

O travado deseja a dança,
mas ninguém o ouve

O esquisito busca o próprio lugar,
mas ninguém o orienta

O indeciso desabafa dúvidas,
mas ninguém o analisa

O inquieto quebra o espelho,
mas ninguém o imita

O perfil luta para ser humano,
mas ninguém o curte

O belo recebe todas as atenções,
mas a verdadeira beleza pertence aos desajustados'

... O nome desta canção? Ela se chama 'Ode aos desajustados', e cada apresentação dela era notável..."

"Com explosões no céu, as pessoas celebraram e comemoraram, expressaram-se e comoveram-se, na festa do primeiro ano do despertar geral. Havia um estado de comunhão primoroso, um sentimento especial, um bem comum em evolução!"