Um conto sobre os contrastes do ano (de tantos tons humanos) - Semana #048
Linhas de reparo
A tarde avança, e as nuvens começam a parar, e as tintas na paleta se realçam para todos os quadros, e os tons dos raios ultravioleta no horizonte balançam e formam a moldura, o retrato e a fortuna da terra firme: uma vista única.
Os sentidos mais puros vão se recuperando e, dos esquecidos recantos da infância, regressam as sinestesias e suas ressignificações – o sabor de néctar nuclear do brilho do sol, o ruído áspero-úmido da maresia da brisa, o odor azul-esverdeado da areia que se esgueira pela maré...
A vida é sopro e silêncio e, durante tudo isso, um ávido esforço de resistência à dor do mundo, ao vazio resultante da comunhão que se desfez em um ato; ela é compromisso e missão de recordar, valorizar e retomar o lado bonito e completo do destino.
Por isso, ouçamos de novo, mas agora apenas com sorrisos, as canções que já ousamos e arriscamos a compor e a tocar nas andanças destes pés, deste coração com fé. E que assim possamos continuar nos escutando e acreditando, pois nossos passos ecoam quando criamos boas lembranças.
Nenhuma jornada pode renunciar à história que nos torna únicos ou isolar vitórias de derrotas, como se o ato de recusar linhas de atribulação e fracasso conseguisse ignorar os dolorosos aprendizados obtidos com brigas e quedas. Na viagem pelos trilhos rodados desta ferrovia, na qual o trem ainda apita com vigor, não se envergam e recaem mais sobre nossa tranquilidade o inventário das diferentes tradições, atribuições e intenções do ser, constantemente ditadas, inventadas e traídas pelo tempo; com clareza, sabemos que sempre aparecerá a opção de enxergar as inerentes ações, reações e redações do crescimento pessoal em uma posição de crédito, apoio e leveza.
E, contra qualquer receio, anseio ou devaneio reincidente no futuro, é inegável a contribuição ancestral das chegadas e das visitas que se guardam em cheio nas costuras e nos revestimentos do peito
– Nos abraços decisivos, nos abrimos e desabamos.

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