Pensamentos Prensados

quinta-feira, maio 15, 2014

Ninguém revive à deriva (hai-kai)


1.

Sono – cortado...
A vinda da aurora mostra
o cais tão distante

Essa âncora
virou outra lembrança
(vida sem porto)

A vela aberta
tenta seduzir o vento.
Mudo destino?

Remos contra o mar
são insetos contra o céu.
Esforço de titã!

2.

Costas sem praias:
nos rochedos, somente há
ondas sem rumo

Sob o sol raivoso,
o espelho vibra e cega /
beleza cruel

A pele queimada
ferve... cada... respingo...
Poros infernais

A boca rachada
absorve poucos goles
– sabor sazonal

3.

Ar e água iguais;
nenhum traço separa
o fim do recomeço

Pássaros e peixes
prendem-se a repetições /
nada irrompe

O calor amarra
os músculos – e as esperanças.
Rota da perdição

Mesmo as miragens
evitam o oceano...
Vazio irreal

4.

Mapa rasgado!
O retorno à ilha será
mais uma fuga de tudo

O isolamento
não sobreviverá à mente
(autoflagelo)

Mil tempestades
desabarão dentro de si
– refúgio frágil

As cartas escritas
não sairão / das garrafas /
Palavras mortas

5.

Passos em círculos:
árvores, pedras e conchas
trarão a loucura!

O reflexo na poça
mostrará marcas frias;
pulsação fraca...

O barulho da maré
não trará reconforto
(vozes ausentes)

O fogo das estrelas
deixará os sonhos nas sombras.
Rostos... de poeira

6.

Brisa mínima?
A corrente que desperta
sussurra o amor

Voltar a navegar
atrás da chance é preciso
– trajeto novo

A tarde avança
e as nuvens começam a parar;
tintas na paleta

Tons no horizonte
formam a moldura da terra:
vista única

7.

Lindo ponto de luz.
O continente promete
uma noite de sorrisos

O corpo exausto
ignora a dor e se ergue!
Barco em repouso

Os acordes nas ruas
não disfarçam as solidões...
Mistérios sem par

Mas uma canção dança
de maneira autêntica:
paz resgatada?