Ninguém revive à deriva (hai-kai)
1.
Sono – cortado...
A vinda da aurora mostra
o cais tão distante
Essa âncora
virou outra lembrança
(vida sem porto)
A vela aberta
tenta seduzir o vento.
Mudo destino?
Remos contra o mar
são insetos contra o céu.
Esforço de titã!
2.
Costas sem praias:
nos rochedos, somente há
ondas sem rumo
Sob o sol raivoso,
o espelho vibra e cega /
beleza cruel
A pele queimada
ferve... cada... respingo...
Poros infernais
A boca rachada
absorve poucos goles
– sabor sazonal
3.
Ar e água iguais;
nenhum traço separa
o fim do recomeço
Pássaros e peixes
prendem-se a repetições /
nada irrompe
O calor amarra
os músculos – e as esperanças.
Rota da perdição
Mesmo as miragens
evitam o oceano...
Vazio irreal
4.
Mapa rasgado!
O retorno à ilha será
mais uma fuga de tudo
O isolamento
não sobreviverá à mente
(autoflagelo)
Mil tempestades
desabarão dentro de si
– refúgio frágil
As cartas escritas
não sairão / das garrafas /
Palavras mortas
5.
Passos em círculos:
árvores, pedras e conchas
trarão a loucura!
O reflexo na poça
mostrará marcas frias;
pulsação fraca...
O barulho da maré
não trará reconforto
(vozes ausentes)
O fogo das estrelas
deixará os sonhos nas sombras.
Rostos... de poeira
6.
A corrente que desperta
sussurra o amor
Voltar a navegar
atrás da chance é preciso
– trajeto novo
A tarde avança
e as nuvens começam a parar;
tintas na paleta
Tons no horizonte
formam a moldura da terra:
vista única
7.
Lindo ponto de luz.
O continente promete
uma noite de sorrisos
O corpo exausto
ignora a dor e se ergue!
Barco em repouso
Os acordes nas ruas
não disfarçam as solidões...
Mistérios sem par
Mas uma canção dança
de maneira autêntica:
paz resgatada?

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