Pensamentos Prensados

terça-feira, novembro 07, 2006

Pequeno elogio do cansaço (crônica)


Estou cansado das chances que viram decepções, das mudanças que se tornam rotina, das piadas que perdem a graça, dos “sábios” que falam desatinos e não sabem a hora de calar e ouvir, do declínio das pessoas e dos lugares, de ver interesses em vez de valores. Levamos anos para entender uma pessoa e ela precisa de apenas cinco minutos para nos desapontar.

Cansei de promessas e declarações condenadas à contradição dos atos, de ter caracteres no lugar de vozes, de ver telas ao invés de rostos, de receber fotos quando deveria haver recordações. A ausência destrói a realidade e alimenta os delírios.

Cansei de quem gosta de palavras vazias e ignora sinceridades, de overdoses de mentiras e doses escassas de verdades, de quem venera felicidades forçadas e as exibe sem parar, de quem critica a espontaneidade incômoda. Não quero ser mais um modelo da fábrica de corações artificiais.

Estou cansado da recompensa aos atores e das punições aos reflexos rebeldes, de acertos prejudicados por um erro e castigados pelo acaso. Mesmo assim, prefiro quebrar o espelho e enfrentar a dor dos estilhaços a ser polido sem parar.

Cansei de escapismos em vez de recomeços, de quem escolhe os atalhos do hedonismo, de festas anti-tédio que sempre são monótonas, de sorrisos falsos que tentam salvá-las. Vejo apenas passos mecânicos na coreografia das marionetes.

Cansei de soluções que só aumentam o problema, de quem não suporta a efemeridade da vida e se prende à nostalgia para enfrentar o futuro em vez de lutar pelo renascimento das risadas. As folhas secas nunca voltam à árvore depois da queda.

Estou cansado dessa encenação, de quem acredita estar participando do espetáculo da vida, de quem não enxerga o teatro da dor. Há um mundo real além dos holofotes da vaidade.

Cansei de todos que se acham diferentes e especiais, sem perceber que são comuns e iguais na sua mediocridade. As lojas do nada não param de lucrar com as vendas da bela embalagem do vazio.

Cansei de egos e estrelas, de dramas, impasses e crises à espera de redenções, coincidências e destino, quando a simples vontade de esclarecer e mudar poderia resolver a situação. Mas a tragédia do orgulho rende um público maior.

Estou cansado do palco e da platéia, de glórias vãs e aplausos hipócritas, da presença de ídolos e da ausência de pessoas, da preferência por fãs e não por amigos. O autógrafo de hoje é o veneno de amanhã.

Cansei da banalização da amizade e da saudade, de procurar canções e encontrar somente ruídos, que aparecem bruscamente e se perdem em silêncios repentinos, indiferentes e desanimadores. Poucos compositores conseguem se tornar melodia.

Cansei de tudo que não me deixa caminhar em paz, da insensatez que só atrapalha e não colabora, da inconseqüência que pede ajuda para depois rejeitá-la, da superficialidade a cada metro percorrido. Os desvios da alienação não me interessam mais.

Estou cansado de quem não me deixa ouvir as poucas canções honestas que encontrei (logo elas tão naturais quanto o ritmo da vida), de quem critica meus sorrisos amargos e não entende que é possível ser feliz sem estar alegre. A verdadeira tristeza é a emoção dissimulada.

Cansei de quem compra a alegria em vez de buscá-la nos pequenos e grandes momentos, de quem foge da solidão usando as pessoas, de quem não valoriza a companhia dos amigos. O desprezo da reflexão suga almas sem parar.

Cansei de aguardar quem não desce do carrossel da futilidade, de acreditar em quem descarta palavras pronunciadas como se fossem cigarros fumados, de observar quem só deseja os olhares da bajulação. A modernidade não vai esvaziar minhas veias.

E esse cansaço será minha energia para continuar rindo, lembrando, tropeçando, chorando, refletindo, me surpreendendo, chegando aonde não acreditava que seria possível.