pensamentos prensados

Domingo, Novembro 26, 2006

Passos que ecoam (crônica)

Você...já abriu os olhos e percebeu que caminha sozinho em uma rua vazia? O percurso ainda pequeno começa a cansar suas pernas. Sua infância se despediu há muito tempo, o mundo escureceu e você vagueia pela madrugada fria. Os passos não ecoam, a efemeridade dissolve o som. Seus braços...envolvem o corpo, mas a alma congela.

Você...já fechou os olhos para esquecer as coisas acumuladas no coração? Alegrias que não voltam mais, dores que insistem em viver. Você abaixa a cabeça para não encarar o nada. Andar é difícil quando se arrasta cadáveres amarrados à memória. Como enterrar parte de sua vida sem se matar? Sua esperança...é abandonada em cada curva, mas o vento a recupera.

Você...já sentiu as responsabilidades que sufocam seus sonhos? As obrigações correm e atropelam você. Sua mente luta contra tantas coisas fúteis, o ar lhe falta quando o tempo finalmente se liberta. Quando a energia volta, outro obstáculo surge. Sua vontade...continua nadando para não se afogar no torpor.

Você...já pensou em pedir socorro ao conforto? A existência oferece diversas luzes artificiais durante o percurso. Sorria sem parar e sobreviva sem se machucar. Cale suas críticas que mantêm o muro erguido. Por que você se recusa a ser feliz como os outros? Seu trajeto...simplesmente não obedece ao mapa que lhe ofereceram.

Você...já parou a garoa e vasculhou respostas na dança das gotas? Seu rosto molhado espera o adeus das nuvens, os olhos contam as estrelas que restaram. Alguma vida consegue chegar ao fim desse caminho? Você chora e segura as lágrimas para não perdê-las. Seu destino...fraqueja quando anda nos círculos do desânimo.

Você...já continuou a caminhar entre poças que entortam os passos e procurou perdão para um castigo que você mesmo criou? As decepções diárias fazem você tropeçar. A dúvida sussurra, um erro pode ressuscitar o passado. Você se encolhe e passa a questionar a confiança. Sua garganta...se esforça para soltar palavras otimistas.

Você...já tremeu com o vento que corta os lábios e faz sangrar a vida que sente saudades da mais bela das vidas? O novo caminho está repleto de frustrações. É tão fácil despedaçar os valores contra o chão, abandonar sua espontaneidade para agradar os outros. Suas escolhas...são testadas a cada silêncio seu na multidão.

Você...já se encostou em um poste à procura dos amigos e voltou para ajudar ao vê-los caídos e feridos? Continue a andar se o seu braço protege a amizade, retorne se a sua mão cumprimenta a hipocrisia. Os atalhos da indiferença nunca têm saída. Suas verdadeiras risadas...e lágrimas...existem graças aos amigos.

Você...já procurou a infância em cada esquina que vê? Tudo era mais fácil quando os pais eram sua sombra e evitavam as quedas, o choque, a amargura. O jardim sumiu quando a melancolia estilhaçou a alma. Você se ajoelha e recolhe incontáveis fragmentos no asfalto. Sua nostalgia...chora ao tocar seus fracassos.

Você...já descobriu que é um andarilho solitário? Apesar dos familiares, amigos, amores e dores, você passará a maior parte de sua vida sozinho. Só no sono, só nos sonhos, pensamentos prensados. As palavras voam no ar e escorrem nas paredes. Seu silêncio...é a voz que orienta você.

Você...já teve medo de tudo e não soube o que fazer? Quando as encruzilhadas aparecem uma após a outra, quando as possibilidades são infinitas, como acertar as escolhas, evitar os erros (des)conhecidos? As tentativas, as mudanças e os recomeços são passos eternos. Sua vida...sempre será sua se você acreditar em mais uma nova chance.

Você...já deixou de ter medo de se olhar no espelho? De encarar as dúvidas e analisar quem você realmente é? O menino brinca com a imagem, reflete o jovem. O sorriso é amargo, mas é natural, você descobre as pequenas e grandes felicidades. Seu reflexo...também sorri pois não imita um reflexo.

Você...já escreveu seu nome em um cartaz, como tantas outras pessoas, apenas para dizer que vive, é especial e está feliz? O esquecimento é a punição da mediocridade e derruba vaidades, é a morte lenta das máscaras sem rostos. Os solitários vivem, a multidão desaparece. Seus passos...ecoam quando criam boas lembranças.

Você...já notou quantas vezes quis desistir de tudo? Sentado na calçada, você tenta expulsar o cansaço (aquele cansaço). A cabeça está abaixada, mas os lábios hesitam em anunciar o fim. Os pés protestam, gritam contra o chão, voltam a cantar. Sonhos contra medos, abraços contra coreografias, recordações contra ausências. Seus olhos...querem ver o céu clarear.

Segunda-feira, Novembro 20, 2006

A fuga do eterno retorno (hai-kai)

O cenário voltou

E aguarda a nova peça

Mudou o elenco?


Protagonista:

Escreve com cuidado

As primeiras linhas!


Sem abertura...

Não tens mais a anterior

E nem a desejas mais


Os dedos e as mãos tremem

Não encontram as palavras

...talvez não haja...


Mesmo assim, vai!

Apresenta-te à folha

E muda a estória!


A descrição feita

Te acalma um pouco

Mas ainda tremes


Temes o diretor...

Qual rumo apontará?

O camarim não diz


Vem, chegou a hora!

Sobe ao palco da glória

É o primeiro ato!


Fala o que sabes

E começarás a entender

Que é preciso mais


Tu não encenas

E silencias os aplausos

que querem cegar


Surge o elenco

Com atores e atrizes

Tão conhecidos!


Procuras o novo

Rostos que não atuem

Mas que respirem...


Nada encontras

Não, o elenco não mudou!

Máscaras iguais!


Teu peito voa

E teus pulmões absorvem o pó

Do eterno retorno


Ciclos malditos:

Quando tentas rompê-los,

Rompem teus sonhos


Aí não há vida

Desiste! Pula do palco

e foge da platéia


Os belos roteiros

Que funcionam no teatro

Nunca te servem


Nenhum roteiro

Te serve ou servirá

Ser inquieto!


...Sei que tremeste

Ao confiar na teimosia

Da vã esperança


Mas neste palco

Os sonhos não adiantam

Para os títeres...


Vai, foge do palco!

Quebra a muralha das vaias!

Foge, reflexo!


O que tu procuras

Não encontrarás na inércia

Desses corações


Desesperado

Queres virar tragédia!

É o teu recomeço!


Enxergas o brilho

Distante e tão irreal

...teus olhos choram...


Talvez lá haja

Somente dor, tristeza

Vida de verdade


Lá não haverá

Lojas da felicidade

Tesouro raro


Para achá-la

Andarás e cortarás os pés

Sobre ilusões


Ainda sim, corre!

A loucura te impele

O cansaço também


Nada resiste

Na terra que avistas...

Mundo desfeito


Sua única lei é:

Quem não vive, perde-se

Na repetição


Quem se repete

Cria o próprio teatro

De uma só peça


Ah, heróis não há!

Nem estátuas e ídolos

Tampouco deuses


O maior inimigo

Que enfrentarás aqui

Vês todos os dias


A chance é eterna:

Sentes essa energia?

Essa luz azul?


Essa energia

Ajuda a transformar vozes

E como lateja!


Pulsa na pele

Escorre pelo rosto

Marcha no sangue


Esse suor é teu

Essas lágrimas são tuas

Essa vida é tua

Sexta-feira, Novembro 17, 2006

Melancólico aniversário (hai-kai)

O dia me reviu
E me levou outro ano
O último? Talvez...

Sábado, Novembro 11, 2006

Três hai-kais sobre a nostalgia


Nossa vida dura apenas um dia

Mal acordamos...
Ah! É tudo tão rápido!
A manhã já passou

Meu único desejo

Tudo que peço
É força para suportar
O ar efêmero

Retorno à terra natal

O rio cortante
Reflete o céu dos morros
Contornos do vale

Microcontos I

São Paulo à la Gabo

O telefone toca: são os seqüestradores da Avenida Paulista.

Ex-lobo da estepe

Convidou sua imperfeição para dançar. Riram a noite inteira.

Filho da puta

Conversava pouco com a mãe porque ela cobrava caro pela hora.

Eleitor pedófilo

- Vai votar em qual candidato?

- No que beijar mais criancinhas.

Inútil prova de amor (dos tempos modernos)

- Você me ama?

- Claro que te amo!

- Quero um depoimento no orkut.

Sua filha de quinze anos engravidou

!!!

Porre

Quando acordou, a poça de vômito ainda estava ali.

Terça-feira, Novembro 07, 2006

Pequeno elogio do cansaço (crônica)

Estou cansado das chances que viram decepções, das mudanças que se tornam rotina, das piadas que perdem a graça, dos “sábios” que falam desatinos e não sabem a hora de calar e ouvir, do declínio das pessoas e dos lugares, de ver interesses em vez de valores. Levamos anos para entender uma pessoa e ela precisa de apenas cinco minutos para nos desapontar.

Cansei de promessas e declarações condenadas à contradição dos atos, de ter caracteres no lugar de vozes, de ver telas ao invés de rostos, de receber fotos quando deveria haver recordações. A ausência destrói a realidade e alimenta os delírios.

Cansei de quem gosta de palavras vazias e ignora sinceridades, de overdoses de mentiras e doses escassas de verdades, de quem venera felicidades forçadas e as exibe sem parar, de quem critica a espontaneidade incômoda. Não quero ser mais um modelo da fábrica de corações artificiais.

Estou cansado da recompensa aos atores e das punições aos reflexos rebeldes, de acertos prejudicados por um erro e castigados pelo acaso. Mesmo assim, prefiro quebrar o espelho e enfrentar a dor dos estilhaços a ser polido sem parar.

Cansei de escapismos em vez de recomeços, de quem escolhe os atalhos do hedonismo, de festas anti-tédio que sempre são monótonas, de sorrisos falsos que tentam salvá-las. Vejo apenas passos mecânicos na coreografia das marionetes.

Cansei de soluções que só aumentam o problema, de quem não suporta a efemeridade da vida e se prende à nostalgia para enfrentar o futuro em vez de lutar pelo renascimento das risadas. As folhas secas nunca voltam à árvore depois da queda.

Estou cansado dessa encenação, de quem acredita estar participando do espetáculo da vida, de quem não enxerga o teatro da dor. Há um mundo real além dos holofotes da vaidade.

Cansei de todos que se acham diferentes e especiais, sem perceber que são comuns e iguais na sua mediocridade. As lojas do nada não param de lucrar com as vendas da bela embalagem do vazio.

Cansei de egos e estrelas, de dramas, impasses e crises à espera de redenções, coincidências e destino, quando a simples vontade de esclarecer e mudar poderia resolver a situação. Mas a tragédia do orgulho rende um público maior.

Estou cansado do palco e da platéia, de glórias vãs e aplausos hipócritas,
da presença de ídolos e da ausência de pessoas, da preferência por fãs e não por amigos. O autógrafo de hoje é o veneno de amanhã.

Cansei da banalização da amizade e da saudade, de procurar canções e encontrar somente ruídos, que aparecem bruscamente e se perdem em silêncios repentinos, indiferentes e desanimadores. Poucos compositores conseguem se tornar melodia.

Cansei de tudo que não me deixa caminhar em paz, da insensatez que só atrapalha e não colabora, da inconseqüência que pede ajuda para depois rejeitá-la, da superficialidade a cada metro percorrido. Os desvios da alienação não me interessam mais.

Estou cansado de quem não me deixa ouvir as poucas canções honestas que encontrei (logo elas tão naturais quanto o ritmo da vida), de quem critica meus sorrisos amargos e não entende que é possível ser feliz sem estar alegre. A verdadeira tristeza é a emoção dissimulada.

Cansei de quem compra a alegria em vez de buscá-la nos pequenos e grandes momentos, de quem foge da solidão usando as pessoas, de quem não valoriza a companhia dos amigos. O desprezo da reflexão suga almas sem parar.

Cansei de aguardar quem não desce do carrossel da futilidade, de acreditar em quem descarta palavras pronunciadas como se fossem cigarros fumados, de observar quem só deseja os olhares da bajulação. A modernidade não vai esvaziar as minhas veias.

E este cansaço será minha energia para continuar rindo, lembrando, tropeçando, chorando, refletindo, me surpreendendo, chegando aonde não acreditava conseguir.

Quinta-feira, Novembro 02, 2006

Flores para os entes queridos (hai-kai)

Descansem em paz
Sob a terra, acima do céu
Além da saudade

Quarta-feira, Novembro 01, 2006

Os doze passos eternos - verso I (hai-kai)

* A cada mês, um verso.

Maldição

O sol, a chance, o erro...
O menino de novembro
Foi, matou e chorou